Friday, October 30, 2009

PARA UMA DESCONHECIDA



Podes ser um encanto, materializando a sapiência da paisagem , certeiramente. A sapiência sem palavras, somente a lógica do poder incomunicada e pregante, pressentida onde soçobram os homens suados de vagabundo, picotados pelo segredo, sedentos da devassidão e da luz que os fará compreender, na sua morte, que Vênus de Milo perdeu os braços por sua vontade, como maneira de reverenciar em ode, a dinâmica. como maneira de fazerem respeitar, solenemente, as leis.

Friday, September 11, 2009

Fica bem contra o preto desta parede, embora se ache que o fim é branco.



Clyfford Still

...


A história desenrola-se num átrio cheio de gente ao som de berimbau ou realejo. entram e saem de uns aspectos que mais parecem de repartição de finanças. um homem, supostamente cheio de ironia, finge ou não o seu suicídio. de forma absurda com discursos mudos, ou com as tais preces encaixadas em alto som. o suicídio deste pálido viajante, é, também, o seu assassinato grotesco. segundo a constatação de principio, ou como resolução final do dilema que lhe prende ainda aos congéneres humanos.

assassinaram o pálido viajante. num castelo, numa repartição de finanças, num lugarejo. numa introspecção final e objectiva. deitado esperneando - banhado de gasolina a quem dão fósforos – com papel higiénico agarrado aos sapatos.

O complexo da sua decência de pernas para o ar, de pernas rojando, ele está sentado numa tribuna, o condenado cochichando às orelhas do Pai, um seu físico um seu etéreo. de modo que, sem duvida , o lugar se transforma no confessionário de dois. Pai e filho.
Estas vergonhas mal mediram para gentes de partes à mostra numa repartição, nem os interrompem. A ignorância assalta a figura
essa figura que não deixaram sair por um lenho rasgado na noite, que crucificaram por não haver enrabado a velha
Aqui onde rasparam das paredes a lua e o sol, nada encontrarás, só tens paredes, so possuis a tua morte mijada e cagada por ignorantes e escarretas para lamber nos degraus de igreja
mereces o que a tua eternidade encomenda. a fumar encostado a ela, de castigo, e quem te cruza faz assim com a mão, o gesto de incompreensão, o gesto de um xis por cima das importâncias
vede quem vive mesclado no símbolo destes abusos ao viajante seminu, macaqueando o estertor do pálido viajante de nos pelas qualidades
a eles somente ocorre a infalibilidade de certas noções de romance sem ser a própria presença no lívido aberrante
e em coro negam ter testemunhado as suas vidas deitadas ao chão.

Thursday, March 08, 2007

POSTURA FILOSÓFICA





"Social Deprivation in the Laboratory: This male rhesus monkey [...] was raised in social isolation for the first eight months of life. Such early isolation often results in bizarre manifestations of self-directed aggression and a highly distorted concept of self. The photos show the monkey annoyed by the outstretched hand moving toward his face; he seems totally unaware that it is his own. His irritation mounts as the hand grows closer; in the final picture he grabs and bites his own hand."

(From: Mitchell, Gary: What Monkeys Can Tell Us About Human Violence. "The Futurist", April 1975, pp. 75-80. PHOTOS: JODY GOMBER AND WILLIAM K. REDICAN, UNIVERSITY OF CALIFORNIA, DAVIS

Friday, February 23, 2007

OPUS

Mussolini e Clara Petacci comprovando a teoria do bico de pássaro.

Se por eventualidade, perguntar-se o relevo deles os dois para a peça, a razão apontada será a que aprouver no tempo das castanhas ou o facto de que, para fins da prova prática da execução das ideias, se tenha ido buscar uns românticos pataratas ou constâncias previsiveis do gênero em causa pois claro.

Heinrich Von Kleist já apontava o dedo a essa estética da substância pensante, a cadência do pelicano aparecendo a desoras, na altura do jantar. A efectivação das ideias, sobre as quais não pretendo tecer conjecturas, leva a este manifesto hiato e a esta certeza recorrente – as ideias, subsumidas numa unidade que poderiamos apelidar de Idalécia, não existiram mesmo, tal como a mulher do seu sonho.

Se o pelicano, atravessando a barreira teórica, fôr concluir algo que seja vai ser que o contéudo comum das ideias acaba inutilmente em múltiplos lados da questão e as variáveis delas iluminam a caracteristica de que o bico de pelicano, aquela coisa mal amanhada e disforme, é a última coisa que as ideias vêem

É melhor apostar que as ideias ainda possuem valor, ainda que relativo. Porque a noção de pássaro joga-se como a carta do conhecimento kantiano, aquilo que encontramos pelos sentidos empíricos, virá de construção mental cuja única objectividade, instaurada como decreto pelo rei das pampas, arrumou nas bagagens os singulares e os plurais e lhes deu ordem de três sopapos na matéria da realidade cheia de penas brancas. O desrespeito total do peru pelicano é da nossa responsabilidade, e a seu jeito, é a maneira de fidelizar todo o nosso propósito à mais sumptuosa evidência, a de que se contorcem, entre ângulos esdrúxulos, com dor de barriga psicológica os intervinientes que podem eles mesmos ser os autores dos pássaros invisiveis, assim se atribuindo os valores certos à matéria dos actos e à ideia, valores de mercearia senhor Almeida, desde que ao primeiro ano decidimos deixar de nos preocupar com isso.


Nestes escritos e feitos persistem todas as vezes esses animais bizarros e as suspeitas de um destino escatilógico

Não falando contra a lógica, objectando mudo em argumento, eles ruinosamente se reunem em armadas. portanto, não é o poder inteligivel que reiteramos, passo a passo ou na totalidade de ser, nos cânones esfrangalhados pela natureza em si. Pois a lógica é o esqueleto da morte exacta e incriada onde o inexacto a ultrapassa como dado.

Saturday, February 10, 2007

Diagnóstico em Rilhafoles

"Grande altura (1,70 m). Corpo e membros 'elancés'. Dedos muito longos, encurvados. Orelhas grandes, mal formadas, de lóbulo muito curto em ponta aderente. Crânio muito alto; depressão na glabela, convexidade frontal muito pronunciada. (…) Face muito longa. Campo visual normal (…) Cavidade bucal muito espaçosa. Dentes cariados, alguns mal implantados. Queixo recuado."

HOMENAGEM A ÂNGELO DE LIMA O LOUCO

Por entre a cidade espantalhos de ébano e marfim vasculham, com cómicos chapéus de palhaço rico enfiados até às orelhas. procuram bananas ou liras, sem saber a diferença. e é vê-los empanturrados, de boca cheia, acocorando-se para esconder prêmios.
no meio desta pompa enmerdada a cabeça impassível do aprisionado emerge, com filosofias de cavalo morto em valetas. as suas lágrimas de désdem enxugadas por manga de uniforme tosco, as suas lágrimas de metáfora.

A irmã sábia, a corça azul, enxuta as tuas lágrimas de metáfora; pois sabes que a vida se esculpe com dentadas profanas, mistérios, rábulas de loucos representando que o uniforme do hospital alça o brilho dos olhos de outraparte, o uniforme cinzento onde o bater de asas levanta o pó de mãos em poesia; alfabeto de tatuagens e guitarras roçadas

Na rua fria, na janela do manicómio, o espirito do infinito ultrapassa a multidão ululante

Só dedilhas a lua esplendorosa, quieto como a brincar com fósforos, roubando entre o cavaleiro do cemitério, glorificando diáfanos. amparando à forma difusa a redenção escrevinhada de obscuros herméticos e hieróglifos luxos.

Wednesday, January 31, 2007

ANTES DA MADRUGADA

dessa teoria neuro-psicológica onde recônditos configuram díspares e ocasionais momentos de ternura, o que é para pôr à prova? os sentimentos positivos ordenam-se por vontades inconscientes e ocasos burlescos. as éticas arrastam-se pelo vento de cavernas hiantes. o que se tenta curar nas gentes, o erro contínuo, e a incerteza de padrões, para dar algo de consistência redimida aos caractéres faltosos. para se arredondar a panóplia de coisas ao monte, a afirmação de uma hipotética honestidade de acções, como fazer?

que estatutos buscar no meio do chão apalhaçado de capoeira? será que um sentimento de compaixão é o fortuito lançar de dados numa vida de crime?

e que, vindos não da boa vontade, mas tão somente de obscuras pulsões os momentos sagrados de compaixão são o fugaz lapso das esfinges dos assassinos?

mera parcela insignificante, mas de epifania, que involuntariamente nos pode convencer que os anjos relevam disparidades, sublinham para mundo plástico as obras de artífices dementes.

Wednesday, January 24, 2007

Crepúsculo. corça podre, uns idos de Março. espécie de prenúncio feito por quem de direito nenhum. onde em tribunal engonça com leis os aspectos. este processo de regras, maquinal e seco, esta exigência vulgar de mesquinhos, cu de cadela sujo. a endecha para connosco estimar a mediocridade, para connosco cruzar desertos. uma condição necessária de realejo para arquitectura de carreiro de formiga. Atravessamos o limiar d´ uns lintéis com a identidade plástica, travestindo o rigor do mistério, sapatorros mergulhando num concreto.

simples, docemente, passivel de compreensão. por essa terra fora pólen e morte germinam, no serviço abrupto, e embora riscados a vermelho, nos cumprimentamos nesse idioma possivel, inicios e fins. agitando subliminares ramos de floresta, levantando folhas, personificando balofos e pedantes vencedores da lotaria sem prêmio.