Monday, May 29, 2006

NIHIL


Do resto, do conjunto, dos estendais de pobres e ricos

expressões que se intercalam na cidade que arde como bonecos de pano estremecidos

abanões que vibram, infinitos que cruzam as testas em rugas de anjos rebolando em vômito

querendo a pureza dos gestos por cima do idealismo e por cima do amor a percevejo

pode ser que nos calhe o outro ofício no mesmo quotidiano, a única escolha; guardar a viola no saco, deitar nos lençoís ensanguentados que desentalaram para leito

empregando as tuas coxas cálidas de lúxuria e as cantigas junto como sermões para fazer corar bestas de carga

vida morte tropel

coveiros arrancando dentes de ouro às vitimas nuas.

MÃE


Sentem-se os dobres de inverno o soluço hesitante de afã. Quem está de chapéu branco só resiste pela moldura. Ternura que virou a esquina e só dobra em ângulos impensáveis. E a lingua do cordeiro foi arrancada do amanhã. Algum louco julga-se escondido no portfolio das horas muitas disto. Embora unicamente se esfriem os rodeios, e ocupem o desenrolar das máquinas.
Oh, esse espasmo de escorpiões que retorna pela esquina eterna, quando estático da tempestade no sangue do nome. Bailam garras acesas e solidões de calma furiosa nos espaços livres pelos mármores. Quaisquer olhos que penso, ainda preciso para seguirem o silêncio da voz por lagartos secos.

E o sangue baila em espectros perdidos, mãos decepadas; o afago a mãe descalça no caminho dos mistérios e mente-se aos pequeninos apontando para o céu como destino.

O sangue baila em espectros perdidos, e um afago a mãe descalça

O afã da tua ternura na ruína do sono que custa a chegar e na maldade que inveja os risos e as brincadeiras alheias

E a mãe descalça é também a mãe do medo louco é a mãe da morte por sobre as campas dando-me a mão vazia no interlúdio da vida

minha boa mãe, venho como serpentes em muda de pele, quero que cubras as estradas de tempo e demónios e me tragas o chapéu branco que usava antigamente naquele momento

quero que ajudes a fechar estes olhos de ruína pura onde o desespero urdiu a cantiga e me pôs nos bolsos as moedas para ninharia

pois fartei-me de repetir incertezas pela lei das formas e dos espíritos,

Só tendo para mostrar o meu rosto
atónito.

Tens que saber isto

Sentado numa cadeira na sala às escuras. A cadeira que se faz contra-luz, é a cadeira das maldições que talvez precisariam de pousar o fôlego noutra baía. O que está de cu sentado cisma como versos de Ajax por entre intervalos a roerem unhas. E transpira o escuro, MEMÓRIAS. Intersecção rutilante, nada menos que o céu cortado pela faca, o céu-tudo e a matéria completa. E no matrimónio da presença com a espera sentada, a orelha de Van Gogh faz atingir a sala nublada com istmos de compreensão. Vêm à minha orelha que os amantes irão rasurar selvaticamente as cartas de amor púberes, e os pedacinhos de papel vão ser mastigados com fagulhas de miséria. Quem estava sentado deitar-se-á através das casas construidas no pó e fechadas por dentro. Embora seja de dia, a luz começará a devorar os pés de alguém. Mas quer o sono, quer a escuridão, almejam muito ser parte da sóbria forma. Em boa verdade, já o são. O planeta rebola no eixo da tarde completamente oca, precisa de se amparar a muletas cinzentas. Uma cadeira tomba como o crepúsculo que se adiantou muitos anos, as muletas fizeram caír o coxo. Não há lugar para relaxar na sala de espera sem ser pontos interrogados até ao nulo , os pontos que sussurram deixas no casinhoto do teatro.
Se estivesse a definir a mentira, porventura seria menos ousado, menos raso; pois aquilo que nos força, está brincando com a omnipotência do momento para o qual nos espojamos. a mentira da anulação é o sossego das tropas. Sobras frouxas a cabecearem na oficina da injúria. O descanso do fundo se troca pela certeza de lata e pela sombra. Já nem adivinho porque me sentei, se estou no chão, abandonado e obscuro. Aqui é o lugar do sonho e do cadáver onde patinaremos de forma menos desajeitada no cócó de sempre.