Wednesday, December 27, 2006

DESCRIÇÃO DE UM SONHO

Seres bestiais de jubas estão à beira-mar, onde espumas embatem nos rochedos salpicando de água salgada. Maresia bruta. Estão de perfil ou de costas, meio de enigmas iluminados pela ténue lua-cheia. quem são eles? Em certo momento caçam uma incauta cadela prenha que passava. Devoram-na entre todos, rasgando tendões e ossos. As águas tingem-se de sangue, e as jubas ensopadas pingam num cenário vermelho. As pequenas crias não chegaram a abrir os olhos, ah esta anulação, manicómios por onde passeiam criaturas desfraldadas nos pensamentos. os meus sonhos comidos por um velho. Demonstra-se a ruina da criação, peitos chupados de uma alcoviteira. Uma plateia numerosa (milhões!milhões!) ignora a experiência do medo e nem sequer tem pena.são os cachorros sem destino. Assistem próximos, relativamente aborrecidos e distraídos, nada incomodados, apenas querem o que querem. Mas claramente a cadela foi arrastada e despedaçada na culpa de outréms, eles.
Os tais seres tornam-se mais pornográficos e os sonhos mais absolutos. Acordando, não sei quem sou ou quem fui na loucura do paraiso em decomposição; emendo, não acordei, estava acordado, só fui um pouco além na rua, foi o que bastou. as bestas andam para cima e para baixo dos lugares reais e comportam-se como senhoras e senhores de fatos domingueiros. e penso que a diferença entre a superficie e o subterrâneo me fará engomar um fato para mim, cedo ou tarde.

Friday, December 01, 2006

Caís

Quantas vezes o desespero esbranquiçou o cabelo, tumultuoso, contando à lua das asneiras roubadas. não somos donos das próprias asneiras. corremos atrás de baratas por entre o lixo diverso, maços de tabaco, jornais velhos.

Procurando pelo amor nas vielas assombradas de ilusões de chamas beijamos putas embora sabendo que não se aconselha. outros o fizeram repetindo coisas, apertando o laço da corda no pescoço

Filhos de migalhas. Pouco adianta contar o rosário no cais. O corpo de cristo não pagou estes pecados, estes abismos de gestos. Estas conas e estas pichas desalmadas

Páginas da bíblia deitadas ao desbarato, acrescentando a miríade de papéis confusos, rugindo por Deus no silêncio

Artaud morre nu segurando o seu sapato, e nós morremos vivos representando cópias.