Friday, February 23, 2007

OPUS

Mussolini e Clara Petacci comprovando a teoria do bico de pássaro.

Se por eventualidade, perguntar-se o relevo deles os dois para a peça, a razão apontada será a que aprouver no tempo das castanhas ou o facto de que, para fins da prova prática da execução das ideias, se tenha ido buscar uns românticos pataratas ou constâncias previsiveis do gênero em causa pois claro.

Heinrich Von Kleist já apontava o dedo a essa estética da substância pensante, a cadência do pelicano aparecendo a desoras, na altura do jantar. A efectivação das ideias, sobre as quais não pretendo tecer conjecturas, leva a este manifesto hiato e a esta certeza recorrente – as ideias, subsumidas numa unidade que poderiamos apelidar de Idalécia, não existiram mesmo, tal como a mulher do seu sonho.

Se o pelicano, atravessando a barreira teórica, fôr concluir algo que seja vai ser que o contéudo comum das ideias acaba inutilmente em múltiplos lados da questão e as variáveis delas iluminam a caracteristica de que o bico de pelicano, aquela coisa mal amanhada e disforme, é a última coisa que as ideias vêem

É melhor apostar que as ideias ainda possuem valor, ainda que relativo. Porque a noção de pássaro joga-se como a carta do conhecimento kantiano, aquilo que encontramos pelos sentidos empíricos, virá de construção mental cuja única objectividade, instaurada como decreto pelo rei das pampas, arrumou nas bagagens os singulares e os plurais e lhes deu ordem de três sopapos na matéria da realidade cheia de penas brancas. O desrespeito total do peru pelicano é da nossa responsabilidade, e a seu jeito, é a maneira de fidelizar todo o nosso propósito à mais sumptuosa evidência, a de que se contorcem, entre ângulos esdrúxulos, com dor de barriga psicológica os intervinientes que podem eles mesmos ser os autores dos pássaros invisiveis, assim se atribuindo os valores certos à matéria dos actos e à ideia, valores de mercearia senhor Almeida, desde que ao primeiro ano decidimos deixar de nos preocupar com isso.


Nestes escritos e feitos persistem todas as vezes esses animais bizarros e as suspeitas de um destino escatilógico

Não falando contra a lógica, objectando mudo em argumento, eles ruinosamente se reunem em armadas. portanto, não é o poder inteligivel que reiteramos, passo a passo ou na totalidade de ser, nos cânones esfrangalhados pela natureza em si. Pois a lógica é o esqueleto da morte exacta e incriada onde o inexacto a ultrapassa como dado.

Saturday, February 10, 2007

Diagnóstico em Rilhafoles

"Grande altura (1,70 m). Corpo e membros 'elancés'. Dedos muito longos, encurvados. Orelhas grandes, mal formadas, de lóbulo muito curto em ponta aderente. Crânio muito alto; depressão na glabela, convexidade frontal muito pronunciada. (…) Face muito longa. Campo visual normal (…) Cavidade bucal muito espaçosa. Dentes cariados, alguns mal implantados. Queixo recuado."

HOMENAGEM A ÂNGELO DE LIMA O LOUCO

Por entre a cidade espantalhos de ébano e marfim vasculham, com cómicos chapéus de palhaço rico enfiados até às orelhas. procuram bananas ou liras, sem saber a diferença. e é vê-los empanturrados, de boca cheia, acocorando-se para esconder prêmios.
no meio desta pompa enmerdada a cabeça impassível do aprisionado emerge, com filosofias de cavalo morto em valetas. as suas lágrimas de désdem enxugadas por manga de uniforme tosco, as suas lágrimas de metáfora.

A irmã sábia, a corça azul, enxuta as tuas lágrimas de metáfora; pois sabes que a vida se esculpe com dentadas profanas, mistérios, rábulas de loucos representando que o uniforme do hospital alça o brilho dos olhos de outraparte, o uniforme cinzento onde o bater de asas levanta o pó de mãos em poesia; alfabeto de tatuagens e guitarras roçadas

Na rua fria, na janela do manicómio, o espirito do infinito ultrapassa a multidão ululante

Só dedilhas a lua esplendorosa, quieto como a brincar com fósforos, roubando entre o cavaleiro do cemitério, glorificando diáfanos. amparando à forma difusa a redenção escrevinhada de obscuros herméticos e hieróglifos luxos.