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24/7 Confinamento


A Pandemia Covid-19 trouxe-nos novas experiências pessoais e coletivas. O estado de emergência veio conectado por 0’s e 1’s, através de banda larga, as redes ficaram sobrecarregadas de reuniões, aulas não presenciais, reuniões familiares, festas, visualização de filmes, pornografia, entre outros. Os ecrãs ocuparam os nossos dias e foram na sua grande maioria a companhia dos solitários, das famílias, intrometendo-se na cama de amantes, e através de algoritmos de rentabilização dos nossos cliques, fomos comprando o que não conseguimos e aquilo que não queríamos, sem poder sair de casa.
“Dizem-nos que toda a gente – e não apenas empresas e instituições – precisa de uma “ presença on-line”, de uma exposição 24/7, para evitar a irrelevância social ou falhanço profissional.” (Crary, 2018:110). Esta presença social online durante o momento de confinamento atingiu níveis únicos na história do digital. Desde as crianças aos mais adultos, a “segurança” de manter o contacto com os outros através de mecanismos digitais, o relacionamento e transformação do mundo digital com o mundo real, das relações humanas com as redes sociais, serão sem dúvida motivos para diversas investigações, no pós-covid 19.

A pandemia digital foi-se instalando numa sociedade neoliberal em pré- confinamento desde a década 90, com mais incidência no final da primeira década do séc. XXI. Neste momento único, que vivemos no segundo trimestre de 2020, onde o medo da hipótese de contrair o vírus corona, rivaliza com a possibilidade de não ter acesso à rede. Não existe hoje a possibilidade de retiro espiritual de uma sociedade cada vez mais conectada. O “Walden” do séc. XXI seria abandonar todas as plataformas digitais, como experiência pessoal de encontro connosco mesmos, levando ao extremo a sobrevivência digital: na ausência de uma receita culinária das milhões partilhadas e repetidas por vários utilizadores da internet, da possibilidade de encomendar comida uberizada, ou googlar todas as dúvidas, discussões ou doenças, ou de saber o que o nosso amigo da primária, ou aquele primo afastado que nunca conhecemos anda a publicar pelo facebook, ou espreitar o instagram daquela/daquele que através da transparência se torna em imagem pornográfica, como o filósofo contemporâneo Byung Chul Han nos identifica através das nossas publicações e fotos nas redes sociais.

Em breve, todos estaremos seguramente livres de qualquer risco deste vírus, que nos fechou em casa sem nos questionar, que se propaga através de humanos e que nos atormenta. Mas outra pandemia, a digital, dificilmente nos abandonará. Esta vem “seguramente“ acompanhada de mecanismos de controlo e vigilância, que vigia todos os nossos passos ou cliques, mesmo enquanto dormimos, ou enquanto trabalhamos, ou enquanto olhamos para o ecrã do nosso telemóvel, ou perseguindo-nos nas escolhas que fazemos nos supermercados. As nossas fotografias abandonaram o analógico e hoje fazem parte de uma nuvem obscura, que dá a entender que nos dá a liberdade de nos expormos socialmente e que nos aproxima dos outros. Deixámos de ter aqueles momentos em família e amigos a ver os velhos álbuns de fotos desses mesmos momentos, sentados no sofá. Estes álbuns digitais e plataformas de partilha social permitem hoje, que vários estranhos nos conheçam melhor do que nós mesmos. Esta informação é hoje o caminho para uma “... amnésia colectiva que a cultura do capitalismo global mantém, as imagens tornaram- se um de muitos elementos esgotados e descartáveis que, no seu carácter intrinsecamente arquivável, acabam por nunca ser totalmente eliminadas e contribuem para um presente mais coagulado e desprovido de futuro.” (Crary, 2018:42).

Nesta sociedade pandémica do séc. XXI, ¿vivemos na segurança, do panótico de Jeremy Bentham, convertido em panótica telemática.
Todos vivemos num profundo receio de ficar para trás na obsolescência tecnológica, que veleja mais rápido que o vento e em muitos casos ultrapassa barreiras inultrapassáveis, sem questionamentos de uma sociedade cada vez mais empenhada em “cooperar” com as grandes empresas de vigilância, não tendo nada para esconder!? Em 24/7 Jonathan Craig refere que “O acelerar da produção de novidades é um incapacitar de memória coletiva, implica que há evaporação de saber histórico já não tem de se fazer de maneira descendente, do topo para a base. As condições quotidianas de comunicação e de acesso a informação garantem o apagamento sistemático do passado enquanto parte da construção fantasmática do presente.” (Crary, 2018:52)
Este momento da pandemia demonstrou a quantidade de informação que os estados detêm sobre os seus cidadãos e a vontade dos “voluntários digitais” ingenuamente abrirem portas para novas aplicações de vigilância e controlo, que nos transmitirão através de mensagens e cruzamento das nossas informações pessoais, se tivermos o risco de contágio do vírus corona. Este controlo, embora futurista para muitos de nós contemporâneos, é já comum em alguns países asiáticos como a China, por exemplo, onde as redes sociais são formas de conhecer os passos dos seus “contribuintes”.

“Qualquer aparente novidade tecnológica é também uma dilatação qualitativa do nosso ajustamento e dependência de rotinas 24/7; igualmente parte de uma expansão do número de pontos nos quais nos tornamos uma aplicação de novos sistemas e iniciativas de controlo” (Crary, 2018:52)

Assusta-me a forma como a tecnologia avança e como somos seus escravos. Sempre me questionei, como em outros momentos da história global, como o ser humano se subjugou à sua condição humana, onde grande parte dos seus direitos lhe foram retirados, aos poucos, sem rebelião contra a autoridade estabelecida. Nesses momentos, morrem primeiro as ideias e filosofias e depois são fuzilados os pensadores. Hoje, vivem as frases sem dono, os memes revolucionários, vídeos virais, fake news e os links de links linkáveis, que fazem parte dos scroll down” sem fim das redes sociais. Estas equipam-nos de armaduras de revolucionários likes e emojis a chorar ou enraivecidos. Trazendo-me à memória o maior de todos os Cavaleiros Andantes, Dom Quixote: que confundindo gigantes com moinhos de vento, nesta nossa sociedade em que vivemos lutas coletivas entre o bem e o mal, em que o vencedor é o comentário com mais likes. Numa sátira de comentários, cheios de ironia, erros, frases sem fundamento, num tempo em que as palavras são magoadas entre raivas, racismos, ódios, machismos, em que a violência escrita petrifica no tempo . Entretanto, somos parte de uma sociedade anónima digital, poliglota através do Google translator e dos emojis, na solidão dos mil e um amigos que nos seguem. Como refere Crary “Os mitos da natureza igualitária capacita durante esta tecnologia só podem ser satisfeitos através da vontade de os ativistas se concentrarem em estratégias na internet, pelas quais se barricam voluntariamente no ciberespaço, onde é muito mais fácil acontecer a vigilância do Estado, sabotagem e a manipulação do que em comunidades vividas e locais onde ocorrem encontros reais.” (Crary, 2018:126)

Quando se instala uma guerra, uma pandemia, um estado de emergência, os estados implementam medidas extremas de segurança, demonstrando em muitos dos casos as suas fragilidades/vulnerabilidades. Estes estados, prevendo ataques, irão usar armas pensadas e desenvolvidas para fazer face a todas situações. O livro “24/7” de Jonathan Craig também expõe algumas dessas armas de uma sociedade neoliberal, onde existem fortes tentativas de controlo de sono, onde os bem sucedidos são aqueles que trabalham mais horas, ou aqueles que acordam cedo e se deitam tarde, aumentando o tempo de vigília, muito se ouve sobre os sacrifícios que hoje se fazem na família em prol do sucesso ou sobrevivência profissional.
“(...)no paradigma neoliberal da globalização, o sono é para os falhados”(Crary, 2018:22),
Neste livro expõe-se alguns dos projetos para controlar o homem e torná-lo uma máquina produtiva e de consumo. Como, por exemplo: lançar satélites para a órbita do nosso planeta com o intuito “de fornecer iluminação para explorações industriais geograficamente remotas...!” o que daria a “...possibilidade de o trabalho ao ar livre prosseguir noite e dia” (Crary, 2018:12), ou os estudos com o pardal-de-coroa-branca de forma a implementar nos seres humanos a perfeição, que seria não dormir e ter capacidades mentais de continuar a produzir e consumir, como esta ave que tem capacidades de voar durante a noite e procurar alimento durante os seus voos migratórios. “(...)tem-se desenvolvido, graças a generoso financiamento, investigação na ergonomia óptica”. (Crary, 2018:55)


As notícias que inundam o mundo dos media, vêm carregadas de um mundo novo, cheio de vantagens produtivas no pós-confinamento, onde todo o sistema neoliberal mostrou as suas grandes apostas erradas e fragilidades gravíssimas perante a pandemia do covid-19, principalmente na desresponsabilização dos estados, privatizando a saúde e a educação. Na educação chegam-nos notas dos Ministros da Educação e do Ensino Superior, que o sistema de ensino à distância foi uma grande vitória e como forma de “agradecimento” do empenho de todos os docentes, estudantes e família, ele está aí para ficar. Este “ensino de emergência” que foi como esfregar a lamparina mágica e que apareceu imediatamente no início do confinamento, e que colocou os estudantes e docentes em frente às telas digitais e interativas, não poderia ser mais que rentável para reduzir os investimentos do estado na educação. Podemos colocar os estudantes em turmas super lotadas, a consumir recursos técnicos em casa, reduzindo o número de horas de contacto e custos com docentes. Onde os Ministros da Educação e principalmente o do Ensino Superior, nos demonstram que estes mecanismos digitais, são aqueles onde os estudantes se sentem em “casa”. Devem então os docentes ser competentes digitalmente, o suficiente, para fechar o ensino dentro de pequenos écrans e serem mais baris que os “youtubers” e os “influencers”. Com a bandeira de um “ensino de emergência” à distância, o governo pretende acima de tudo reduzir custos e mais uma vez privatizar parte do conhecimento através de plataformas controladas pelas grandes empresas digitais como “Google”, “Microsoft”, entre outras. Aqui como em outras situações mundialmente conhecidas, os docentes humildemente cavaram o próprio poço onde se enfiaram. Acredito que os próximos tempos serão de vasta discussão e de luta para reaver um ensino de proximidade e de qualidade.

Este tempo de confinamento não foi um tempo de paragem ou reflexão, porque nunca o ser humano em estado de emergência conseguiria ter consciência de si, ou do seu papel no mundo, fechado involuntariamente em casa, desempenhando os diversos papéis familiares, de educador, profissional e social, como animal lançado para “O Covil” Kafkaniano.
Terá esta pandemia digital consequências na vida quotidiana das pessoas? Será possível criar mecanismos de defesa pessoal contra o poder da tecnologia de controlo? Será que os utentes digitais conseguirão alienar-se às novas tecnologias, ou às redes sociais? Será capaz o “ensino de emergência” à distância de substituir o atual sistema educativo? Será necessária a escola? Será que o analógico se irá vingar do digital?
Nota: Este trabalho teve como base a leitura do livro “24/7” de Jonathan Crary, e, embora no livro uma das questões pertinentes seja o tempo quotidiano e as suas explorações, para a escrita deste texto debrucei-me sobre a temática do Mundo Digital.
Bibliografia usada: Crary, J. (2018). 24/7 (1a; Antígona, ed.). Lisboa.


Viseu, 11 de Junho 2020 


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